Quando a Rede Globo exibiu a minissérie Capitu em dezembro de 2008, como parte das comemorações do centenário de morte de Machado de Assis, o público brasileiro não estava diante de uma simples adaptação literária. Sob a direção de Luiz Fernando Carvalho, a transposição do romance Dom Casmurro (1899) para a televisão transformou-se em um manifesto estético. Com roteiro assinado por Euclydes Marinho e colaboração de Daniel Piza, a obra transcendeu o naturalismo televisivo tradicional, consolidando o estilo que o diretor convencionou chamar de "barroco suburbano" — um amálgama de teatro, ópera, artes plásticas e metalinguagem.
O uso da iluminação também reflete o abismo psicológico dos personagens. Com fortes contrastes entre luz e sombra, a fotografia evoca os quadros de Caravaggio e o expressionismo alemão, transformando o palacete de Matacavalos em um labirinto expressionista de culpas e desejos reprimidos. A Ópera dos Olhos de Ressaca: Música e Teatralidade
Ao fim dos cinco capítulos, o telespectador não recebe uma resposta fácil. Assim como o leitor do livro de 1899, o público da minissérie é convidado a submergir naqueles olhos de ressaca e a aceitar que, na vida e na arte de Machado de Assis, a verdade é uma ilusão construída pelas palavras. Seriado Capitu - Luis Fernado de Carvalho
In literature classes, we discuss Bentinho’s jealousy. Carvalho shows it. By seeing Bentinho’s view next to Capitu’s solitude, the viewer realizes that truth is irrelevant. Carvalho’s thesis is that perception is reality.
Esse espaço operístico funcionou como o próprio cérebro do narrador. As ruínas do palácio abandonado, as paredes descascadas e a iluminação expressionista de Lauro Escorel materializaram o isolamento de Bento Santiago. A cenografia de Beth Filipecki transita entre o real e o onírico: o quintal de Mata-cavalos convive com tapetes persas rasgados, partituras espalhadas e uma areia movediça que evoca o mar da ressaca de Capitu. Não há separação entre o passado idílico e o presente decrépito; a cenografia funde os dois tempos na arquitetura da culpa. Quando a Rede Globo exibiu a minissérie Capitu
A minissérie choca e cativa logo em sua primeira cena, que é embalada pelo clássico "Voodoo Child" , de Jimi Hendrix. A narrativa é pontuada por uma eclética mistura de rock, folk e MPB, incluindo faixas como "Elephant Gun" da banda norte-americana Beirut, "Mercedes Benz" de Janis Joplin, "Minhas Lágrimas" de Caetano Veloso, e uma versão instrumental de "Iron Man" do Black Sabbath executada pelo trio de jazz The Bad Plus. Esse anacronismo proposital não apenas quebra a rigidez do drama de época, mas reflete o caos interno, o ritmo e a rebeldia do subconsciente dos protagonistas. A Questão do Ponto de Vista: Traição ou Paranóia?
Árias de óperas clássicas dividem espaço com o indie rock e o pós-punk da banda libanesa e, proeminentemente, do grupo nova-iorquino The Velvet Underground . A canção "Stephanie Says" torna-se o leitmotiv da juventude dos protagonistas. Essa anacronia musical quebra o distanciamento histórico do telespectador, conectando a angústia romântica do século XIX à rebeldia e melancolia da juventude contemporânea. A Traição na Era da Suspeita O uso da iluminação também reflete o abismo
Carvalho wisely refuses to answer. He simply presents the waves. If you love Brazilian literature, you owe it to yourself to see Capitu not just through Bentinho’s paranoid eyes, but through the honest, skilled, and haunting gaze of Luis Fernando de Carvalho.
The narrative then fractures. Carvalho presents three overlapping versions of the same event—the night Ezequiel is conceived. The first is Bento’s official memory: cold, suspicious, a mere transaction. The second is a neighbor’s testimony: a warm, loving couple laughing by candlelight. The third is Capitu’s own silent recollection, told through her hands mending a child’s shirt—a gesture of quiet hope, not of guilt.